Nutrição

Paladar, olfato e alimentos hiperpalatáveis em idosos: como manter uma dieta saudável

Entenda por que o envelhecimento pode alterar o paladar e o olfato, aumentar a preferência por alimentos hiperpalatáveis e veja estratégias para manter uma alimentação saudável na velhice.

Por Eduardo Panizzon23 de agosto de 202611 min de leitura

O envelhecimento pode trazer mudanças no paladar e no olfato que alteram a forma como os alimentos são percebidos. Para algumas pessoas, comidas que antes eram saborosas passam a parecer menos atraentes, enquanto alimentos com sabores mais intensos, doces, salgados ou ricos em gordura podem se tornar mais desejáveis.

Essa mudança pode dificultar a manutenção de uma alimentação saudável.

Ao mesmo tempo, é importante evitar a ideia de que todo idoso necessariamente passa a preferir alimentos ultraprocessados. As preferências alimentares são influenciadas por muitos fatores, incluindo hábitos anteriores, cultura, saúde, medicamentos, condições da boca, paladar, olfato e disponibilidade dos alimentos.

O objetivo não é proibir alimentos mais saborosos, mas encontrar maneiras de tornar uma alimentação saudável mais agradável e nutritiva.

Este conteúdo é informativo e não substitui orientação individual com profissional da saúde qualificado.

O que são alimentos hiperpalatáveis?

Alimentos hiperpalatáveis são produtos formulados para apresentar características sensoriais que podem torná-los especialmente agradáveis ao paladar.

Eles frequentemente combinam quantidades elevadas de ingredientes como:

  • açúcar;
  • gordura;
  • sal;
  • carboidratos refinados.

Exemplos podem incluir alguns biscoitos, doces, salgadinhos, sobremesas, fast food e outros produtos ultraprocessados.

É importante lembrar que “hiperpalatável” e “ultraprocessado” não são exatamente a mesma coisa. Os conceitos se relacionam, mas não são sinônimos.

Por que o paladar muda com a idade?

O envelhecimento pode estar associado a alterações na percepção dos sabores e dos odores.

A capacidade de perceber determinados estímulos sensoriais pode diminuir com o passar dos anos, e o olfato também pode sofrer alterações.

Como o sabor que percebemos depende fortemente da interação entre paladar e olfato, essas mudanças podem fazer com que os alimentos pareçam menos saborosos.

Uma revisão sobre perda de paladar em idosos destaca que alterações na percepção dos sabores podem influenciar os hábitos alimentares e a escolha dos alimentos.

Outro estudo publicado na Scientific Reports encontrou alterações relacionadas à idade na sensibilidade oral, no paladar e no olfato.

Por que alimentos muito doces ou salgados podem parecer mais atraentes?

Quando a percepção dos sabores diminui, algumas pessoas podem buscar sabores mais intensos para compensar essa redução.

Isso pode levar ao uso de mais sal, açúcar, molhos ou outros ingredientes para tornar a comida mais saborosa.

Produtos industrializados também podem apresentar combinações de sabores, texturas e aromas que os tornam muito atraentes.

Entretanto, a resposta não é simplesmente aumentar a quantidade de açúcar ou sal da alimentação.

Existem maneiras mais saudáveis de intensificar o sabor das refeições.

O envelhecimento muda a forma como o cérebro responde aos alimentos?

O envelhecimento também está associado a mudanças nos sistemas cerebrais envolvidos na motivação, recompensa e controle do comportamento.

Estudos de neurociência indicam alterações relacionadas à idade nos sistemas dopaminérgicos e nas redes cerebrais envolvidas no processamento de recompensas.

Essas mudanças podem influenciar a maneira como as pessoas respondem a estímulos agradáveis, incluindo alimentos.

No entanto, isso não significa que o cérebro do idoso simplesmente “prefira alimentos ruins”.

O comportamento alimentar resulta da interação entre mecanismos biológicos, experiências anteriores, hábitos, ambiente, disponibilidade dos alimentos e fatores sociais.

Idosos têm maior risco de comer alimentos ultraprocessados?

O consumo de alimentos ultraprocessados pode fazer parte da alimentação de pessoas de diferentes idades.

Uma revisão publicada no The Lancet discute o conjunto crescente de evidências sobre a associação entre o consumo de ultraprocessados e diversos desfechos de saúde.

Além disso, um estudo publicado em 2025 investigou especificamente comportamentos relacionados ao consumo de alimentos ultraprocessados em adultos mais velhos nos Estados Unidos.

Esses estudos reforçam a importância de observar a qualidade geral da alimentação, mas não significam que todos os idosos tenham o mesmo comportamento alimentar ou que todo alimento industrializado seja prejudicial.

O problema é ainda maior quando o idoso perde o apetite

Alterações no paladar e no olfato não levam necessariamente ao ganho de peso.

Em alguns idosos, o efeito pode ser exatamente o contrário: a comida perde o sabor e a pessoa passa a comer menos.

Um estudo publicado no The Journal of Nutrition encontrou associação entre alterações no paladar e no olfato, menor apetite, menor ingestão de macronutrientes e pior qualidade da dieta.

Isso é especialmente importante porque idosos podem apresentar maior risco de perda de massa muscular e ingestão insuficiente de proteínas e energia.

Portanto, simplesmente dizer “evite alimentos saborosos” pode ser uma orientação inadequada para uma pessoa idosa com pouco apetite.

Como tornar a comida saudável mais saborosa?

Uma das melhores estratégias é aumentar a intensidade e a variedade dos sabores sem depender excessivamente de açúcar, sal ou gordura.

Podem ser utilizados:

  • ervas frescas ou secas;
  • alho;
  • cebola;
  • limão;
  • vinagre;
  • pimenta;
  • páprica;
  • cúrcuma;
  • gengibre;
  • ervas aromáticas;
  • especiarias;
  • alimentos ricos em sabor umami.

O objetivo é tornar alimentos nutritivos mais atraentes.

O sabor umami pode ajudar?

O umami é um dos principais sabores reconhecidos pelo paladar e está associado a alimentos ricos em determinadas substâncias, como o glutamato.

Alguns estudos investigaram se a intensificação do sabor umami poderia ajudar pessoas com redução da percepção do sabor.

O uso de ingredientes naturalmente ricos em umami pode ser uma estratégia para melhorar a aceitação das refeições sem necessariamente aumentar a quantidade de açúcar ou sal.

Alguns exemplos incluem:

  • tomate;
  • cogumelos;
  • queijo;
  • ovos;
  • peixes;
  • carnes;
  • caldos preparados com ingredientes naturais.

A utilização desses alimentos deve considerar as necessidades individuais, especialmente em pessoas que precisam controlar a ingestão de sódio.

A variedade de alimentos pode melhorar a alimentação do idoso?

Sim.

A variedade pode tornar as refeições mais interessantes e aumentar a aceitação dos alimentos.

Um estudo realizado com idosos residentes em instituições mostrou que estratégias voltadas para melhorar a qualidade sensorial e a variedade das refeições podem aumentar o prazer de comer e a ingestão alimentar.

Isso é particularmente importante para idosos com pouco apetite.

Uma alimentação saudável não precisa ser repetitiva.

Variar cores, texturas, temperaturas, aromas e sabores pode tornar as refeições mais agradáveis.

Como manter uma alimentação saudável sem deixar a comida sem graça?

Uma alimentação saudável não precisa ser uma alimentação sem sabor.

Algumas estratégias práticas incluem:

1. Use temperos naturais

Ervas e especiarias podem aumentar o sabor sem depender exclusivamente de sal.

2. Combine diferentes texturas

Uma refeição pode ficar mais agradável quando combina alimentos macios, crocantes e cremosos, desde que a pessoa consiga mastigá-los com segurança.

3. Varie os alimentos

Evite comer exatamente as mesmas refeições todos os dias.

Alternar legumes, verduras, frutas, fontes de proteínas e cereais pode aumentar a variedade nutricional e sensorial.

4. Priorize proteínas

Para idosos, é especialmente importante manter uma ingestão adequada de proteínas para ajudar na preservação da massa muscular.

Boas opções incluem:

  • ovos;
  • peixes;
  • frango;
  • carnes magras;
  • leite e derivados;
  • feijão;
  • lentilha;
  • grão-de-bico;
  • outras leguminosas.

5. Torne os alimentos nutritivos mais atraentes

Frutas podem ser combinadas com iogurte natural, por exemplo. Legumes podem ser preparados de diferentes maneiras e temperados com ervas, alho e outros ingredientes.

A apresentação da comida também pode influenciar o prazer de comer.

E se o idoso prefere doces?

Não é necessário transformar o consumo de doces em um assunto de “proibido ou permitido”.

Uma estratégia mais realista é controlar a frequência e a quantidade, enquanto a alimentação do restante do dia permanece nutricionalmente adequada.

Por exemplo, uma pequena sobremesa pode fazer parte de uma alimentação equilibrada.

O problema geralmente está no consumo frequente e excessivo de alimentos com grande quantidade de açúcar, gordura ou sal, especialmente quando eles substituem alimentos mais nutritivos.

E os alimentos salgados?

O excesso de sódio é especialmente relevante para pessoas com hipertensão ou outras condições cardiovasculares.

Se o idoso percebe que a comida está sem sabor, em vez de simplesmente adicionar mais sal, pode-se experimentar:

  • alho;
  • cebola;
  • limão;
  • ervas;
  • especiarias;
  • pimenta;
  • vinagre;
  • outros ingredientes aromáticos.

Isso pode aumentar a percepção de sabor sem depender exclusivamente do sal.

O idoso deve evitar completamente alimentos ultraprocessados?

Não é necessário interpretar a alimentação de maneira tão rígida.

A qualidade da dieta depende do conjunto dos alimentos consumidos e da frequência com que determinados produtos aparecem na alimentação.

Uma alimentação baseada predominantemente em alimentos in natura ou minimamente processados tende a oferecer maior variedade de nutrientes.

Alguns alimentos industrializados também podem ser úteis em determinadas situações, especialmente quando facilitam o consumo de energia e proteínas por idosos com pouco apetite.

A recomendação deve considerar o contexto individual.

E se o idoso estiver comendo pouco?

Esse é um ponto importante.

Em idosos com perda de apetite, perda de peso ou risco de desnutrição, a prioridade pode ser garantir ingestão suficiente de energia e proteínas.

Uma revisão de 2026 sobre estratégias alimentares para combater a desnutrição proteico-energética na velhice destaca a importância de estratégias baseadas nos alimentos para melhorar a ingestão nutricional.

Nesses casos, aumentar a palatabilidade das refeições pode ser útil.

O objetivo não deve ser simplesmente retirar todos os alimentos mais saborosos, mas encontrar maneiras de aumentar a ingestão de alimentos nutritivos.

Quando alterações no paladar e no olfato precisam ser investigadas?

Uma redução importante ou repentina do paladar ou do olfato merece avaliação.

Diversas condições podem alterar essas funções, incluindo:

  • problemas de saúde bucal;
  • boca seca;
  • alterações nasais;
  • infecções;
  • alguns medicamentos;
  • doenças neurológicas;
  • alterações do olfato relacionadas ao envelhecimento.

Problemas persistentes também podem levar à perda de apetite e à piora da qualidade da alimentação.

Se o idoso percebe uma mudança importante e persistente no paladar ou no olfato, é recomendável conversar com um profissional de saúde.

Medicamentos podem alterar o sabor dos alimentos?

Sim.

Alguns medicamentos podem alterar o paladar, o olfato ou provocar boca seca.

Por isso, quando uma pessoa começa a perceber que os alimentos ficaram com sabor diferente após iniciar um medicamento, é importante conversar com o médico ou farmacêutico.

Não se deve interromper um medicamento por conta própria.

Como montar uma alimentação saudável e saborosa na velhice?

Uma estratégia simples é pensar em cada refeição como uma oportunidade de combinar nutrição e prazer.

Uma refeição pode incluir:

  • uma fonte de proteína;
  • verduras e legumes;
  • uma fonte de carboidrato;
  • uma pequena quantidade de gordura saudável;
  • temperos e ervas para aumentar o sabor.

Frutas, legumes, feijão, ovos, peixes, carnes, leite e derivados podem fazer parte de uma alimentação variada, de acordo com as necessidades individuais.

A melhor dieta é aquela que consegue ser nutritiva, agradável e sustentável ao longo do tempo.

Perguntas frequentes

Por que idosos gostam mais de alimentos doces?

Alterações relacionadas ao envelhecimento no paladar e no olfato podem modificar a percepção dos alimentos. Algumas pessoas podem buscar sabores mais intensos para tornar as refeições mais agradáveis. Porém, não existe uma regra de que todo idoso passe a preferir doces.

Por que a comida parece perder o sabor com a idade?

O envelhecimento pode alterar a sensibilidade ao sabor e ao cheiro. Como o olfato contribui significativamente para a percepção do sabor, alterações em ambos podem fazer os alimentos parecerem menos intensos.

Idosos devem comer mais sal porque sentem menos o sabor?

Não. A redução da percepção do sabor não significa que seja necessário aumentar o consumo de sal. Ervas, especiarias, alho, cebola, limão e outros ingredientes podem aumentar o sabor sem depender exclusivamente do sal.

Alimentos ultraprocessados são proibidos para idosos?

Não. Entretanto, é recomendável evitar que alimentos ultraprocessados ocupem uma parcela excessiva da alimentação, especialmente quando substituem alimentos nutritivos.

Como melhorar o apetite do idoso?

Tornar as refeições mais saborosas, variadas e visualmente atraentes pode ajudar. Em idosos com perda importante de apetite, perda de peso ou risco de desnutrição, é importante procurar avaliação de um profissional de saúde.

O idoso precisa evitar doces completamente?

Não necessariamente. Pequenas quantidades podem fazer parte de uma alimentação equilibrada. O mais importante é evitar o consumo excessivo e frequente, especialmente quando os doces substituem alimentos nutritivos.

Como deixar a comida mais saborosa sem usar muito sal?

Use ervas, especiarias, alho, cebola, limão, vinagre, pimenta, páprica, cúrcuma e outros ingredientes aromáticos. A variedade de sabores também pode tornar a refeição mais agradável.

Conclusão

O envelhecimento pode modificar o paladar e o olfato, fazendo com que alguns alimentos pareçam menos saborosos. Em algumas pessoas, isso pode favorecer a busca por sabores mais intensos e alimentos hiperpalatáveis. Em outras, pode provocar perda de apetite e redução da ingestão alimentar.

Por isso, a alimentação do idoso precisa equilibrar dois objetivos: ser saudável e ser prazerosa.

Não é necessário eliminar completamente doces, alimentos industrializados ou outros alimentos mais palatáveis. O mais importante é que eles não substituam regularmente alimentos nutritivos e que a alimentação como um todo seja variada.

Usar ervas, especiarias, ingredientes ricos em sabor, diferentes texturas e maior variedade de alimentos pode ajudar a tornar refeições saudáveis mais atraentes.

Para idosos com perda importante do paladar ou olfato, falta de apetite, perda de peso ou dificuldade para manter uma alimentação adequada, é importante investigar as possíveis causas e buscar orientação profissional.

Uma alimentação saudável na velhice não precisa ser sem graça. Com pequenas adaptações, é possível cuidar da saúde e, ao mesmo tempo, preservar o prazer de comer.

Referências

  1. Critical Reviews in Food Science and Nutrition - Taste Loss in the Elderly
  2. Scientific Reports - Age-Related Changes in Oral Sensitivity, Taste and Smell
  3. The Journal of Nutrition - Poor Taste and Smell Are Associated With Poor Appetite and Dietary Quality
  4. Scientific Reports - Associations of the Oral Microbiota and Candida With Taste, Smell, Appetite and Undernutrition
  5. Proceedings of the National Academy of Sciences - Age-Related Changes in Midbrain Dopaminergic Regulation of the Human Reward System
  6. Human Brain Mapping - Impact of Aging on Frontostriatal Reward Processing
  7. The Journals of Gerontology: Series B - Food Inhibitory Control and Reward Responsiveness in Healthy Aging
  8. Brain Research - Reduced Nucleus Accumbens and Caudate Nucleus Activation to a Pleasant Taste Is Associated With Obesity in Older Adults
  9. The Lancet - Ultra-Processed Foods and Human Health
  10. Addiction - Ultra-Processed Food Addiction in a Nationally Representative Sample of Older Adults in the USA
  11. Proceedings of the Nutrition Society - Food-Based Strategies to Mitigate Protein-Energy Undernutrition in Later Life
  12. The Journal of Nutrition - Intensification of Sensory Properties of Foods for the Elderly
  13. Appetite - Optimizing Sensory Quality and Variety in Older Nursing Home Residents
  14. Biological & Pharmaceutical Bulletin - Application of Umami Taste Stimulation to Remedy Hypogeusia
  15. Cochrane - Interventions for Managing Taste Disturbances
  16. European Archives of Oto-Rhino-Laryngology - Assessment and Behavioural Management Options for Older Adults With Declined Smell and Taste Functions
Retrato de Eduardo Panizzon

Sobre o autor

Eduardo Panizzon

Eduardo Miguel Panizzon é médico em formação. Possui experiência acadêmica e prática e dedica-se à produção e divulgação de conteúdos de saúde baseados em evidências, com o objetivo de oferecer informações claras, confiáveis e acessíveis para o público.

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